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“Gostaria de estar no ministério até hoje, mas precisaria ter autonomia”, diz Teich

Ex-ministro Nelson Teich

Ex-ministro afirmou que Bolsonaro tem “uma forma peculiar” de conduzir a pandemia e mostrou preocupação com o PNI

Nelson Teich, ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro, disse nesta quarta-feira (13) em entrevista à Rádio Bandeirantes que gostaria de ter continuado à frente da pasta, mas não poderia permanecer no cargo sem ter autonomia para implementar as medidas que considerava essenciais no combate à pandemia do coronavírus.

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“Eu saí porque não teria autonomia para conduzir da forma que achava certa. Nem autonomia nem legitimidade. Nunca conseguiria implantar o que eu gostaria. Se continuasse, repetiria o que aconteceu com o Mandetta [ministro anterior]. Eu e o presidente [Jair Bolsonaro] conversávamos. O presidente tem uma forma muito peculiar de conduzir. Ele que foi eleito, ele escolhe os ministros da confiança dele. A partir do instante em que eu não teria autonomia, não teria mais condições de ficar”, declarou Teich.

“Você não pode ficar prometendo quando ainda nem entrou. Não sabe onde vai entrar. Para entender se eu poderia implementar o que eu gostaria, só estando dentro do ministério. Tinha que entrar, e foi uma honra. É uma pena. Eu realmente gostaria de estar lá até hoje, mas precisaria ter tido autonomia para conduzir da forma como achava certo. Ficar seria só problema e confusão, não adiantaria”, completou. “Não dá para vencer uma guerra dentro de outra. A situação política só atrapalha a condição da pandemia.”

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Segundo o ex-ministro Teich, um dos debates que deveria estar sendo feito diz respeito ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

“A primeira coisa que a gente tem que ter claro é que, mais importante do que a vacina, é ter um programa de vacinação que funcione. Da mesma forma que a covid-19 sobrecarregou os sistemas de saúde, a vacinação vai sobrecarregar os sistemas de imunização”, explicou.

De acordo com ele, embora algumas autoridades falem que 300 milhões de vacinas foram distribuídas em 2019, o DATASUS, sistema oficial do governo, mostra que foram dadas apenas cerca de 115 milhões.

“É fundamental sabermos esse número exato. Se você quiser vacinar 150 milhões de pessoas contra covid-19 com duas doses são 300 milhões de doses. Se botar 300 milhões de doses em cima de um sistema que já vacina 300 milhões é complicado. Se botar 300 milhões em cima de 100 milhões, muito mais difícil. A primeira coisa que temos que entender é como está funcionando o PNI. Até porque, nos últimos dois anos, não batemos meta alguma em vacinas para crianças. Não podemos achar que, porque o programa nacional do Brasil é muito bom, isso vai ser minimamente razoável e tranquilo. Não vai”, disse.

“Outra coisa. Quando vejo as pessoas se preocupando demais em vacinar primeiro ou fazer determinado número parecer melhor… O programa de imunização é como se fosse uma maratona, passa por 2021 e 2022 para fazer acontecer. Quando faz isso, é como se o camarada se preparasse para uma maratona focando em uma corrida de 100 metros. Não vai dar certo. O que vai dar certo é conseguir vacinar em um ponto em que a gente consiga mudar a história nacional da doença. Ser o primeiro é muito pouco importante.”

CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA: