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Fundador da Anvisa critica Ricardo Barros e diz que União Química está “comprando deputados” pela Sputnik V

Gonzalo Vecina Neto, fundador da Anvisa

Segundo Vecina, farmacêutica está “movimentando o Centrão para asfaltar sua chegada em uma área em que nunca trabalhou”

Fundador da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) Gonzalo Vecina Neto criticou nessa sexta-feira (5) a pressão política que tem influenciado a “corrida pelas vacinas” contra covid-19 no Brasil, especialmente em relação à Sputnik V. Segundo ele, a União Química, farmacêutica responsável pelo imunizante russo no país, está “comprando deputados do Centrão” para pular etapas de estudos clínicos e pressionar a agência a aprová-la para uso emergencial.

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“Essa conversa de ‘a Argentina já provou, o México já aprovou’… Eu acho que esses países estão correndo um risco desnecessário, não deveriam ter aprovado sem ter os dados completos. A The Lancet publicou parte dos estudos de fase 3. O que a CoronaVac, a Oxford/AstraZeneca e a Janssen apresentaram são dados muito mais completos que os dados apresentados pelos russos. Aqui temos um interesse menor de uma fábrica chamada União Química que está comprando políticos para asfaltar sua chegada em uma área em que nunca trabalhou, a área da biotecnologia”, afirmou à Rádio Bandeirantes.

“Quem é o representante da União Química responsável pela movimentação da Sputnik V? Um ex-deputado federal que se intitula responsável pelas ações internacionais da empresa. Ele está movimentando o Centrão no Congresso porque já fez parte do Centrão. Ele está correndo atrás de líderes para colocar a União Química nesse clube. Repito: ela tem todo direito de fazer parte, mas tem que dar os passos necessários para que isso aconteça. Tem que demonstrar que tem capacidade de produção de um produto seguro e eficaz. Se fizer isso, tem direito. Mas no berro, como está fazendo, buscando acordos com deputados, está errado. A indústria farmacêutica brasileira tem que cobrar isso. Ela está desestruturando um mercado que está funcionando muito bem no Brasil.”

O ex-deputado citado por ele é Rogério Rosso (PSD). Segundo o sanitarista, a acusação está diretamente ligada às declarações recentes do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP), que afirmou que tenta formar maioria para apresentar um projeto para “agir contra a falta de percepção da Anvisa sobre o momento de emergência que nós vivemos” e “enquadrar” a agência para que aprove a Sputnik V e outras vacinas que participam do processo.

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“Ricardo Barros deve ter um trauma de infância não confessado ainda. Essa já é a segunda vez que ele tenta enquadrar a Anvisa. Quando era ministro da Saúde do governo de Michel Temer, faltou determinado remédio para tratar uma doença grave e ele quis importar um remédio vagabundo da China que era mais barato. A Anvisa não permitiu. Ele fez o diabo para enquadrar a Anvisa. Na época, o presidente da Anvisa era o Jarbas Barbosa, hoje na OPAS. Ele foi enquadrado e está querendo devolver agora”, disparou Vecina.

“Aparentemente a vacina Sputnik V é boa, mas ela não divulga os dados. O Ricardo Barros acha que temos um Vladimir Putin no Brasil chamado Jair Bolsonaro. Na Rússia o Putin quis [aprovar a vacina], aqui ele quer achar um Putin e colocar a agência de joelhos. Agora, a agência é responsável por garantir a segurança e a eficácia, a qualidade dos produtos que consumimos. Dependemos dela. Se a Anvisa ficar de joelhos, a sociedade vai ficar de joelhos. Não terá mais a garantia sobre os produtos que consome. A Anvisa é um órgão técnico e independente de política e continuará sendo, se a sociedade a defender de interesses idiotas desse sujeito no Congresso.”

Vecina ressaltou que o responsável na Rússia pelas negociações não é o Instituto Gamaleya, laboratório e centro de pesquisa, mas o Fundo Russo.

“O laboratório Gamaleya nem deve estar sabendo. Quem faz negócio pelo Gamaleya é o Fundo Russo de Investimentos Diretos, encabeçado por Kirill Dmitriev, um senhor da ponta do governo russo que tenta vender coisas pelo mundo. Ele encontrou a União Química e, a partir desse encontro, a coisa começou a andar. O interesse dele é vender. O quê? Qualquer coisa. Seja bom ou ruim. Não dá para falar isso do Gamaleya, um centro de pesquisa. Mas o Fundo Russo não tem nada a ver com vacina, tem a ver com grana (…). Eu posso ser desmentido. Que venha um representante do Gamaleya, do Fundo Russo e da União Química e aponte os fatos. Eu me renderei.”

ENTREVISTA COMPLETA AQUI: