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Presidente da Anvisa critica pressão do líder do governo e diz que ainda “faltam muitos documentos” da Sputnik V

Presidente da Anvisa

Barra Torres disse que declarações do deputado Ricardo Barros “pegaram mal” e foram “completamente desnecessárias”

O presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, disse nesta quinta-feira (4) ao Brasil Urgente que, mesmo com o fim da exigência de estudos da fase 3 no Brasil para autorização emergencial de vacinas contra covid-19, a liberação da Sputnik V no país não será imediata. Ele ainda criticou a pressão feita por políticos para que a agência acelere o processo de análise, rebatendo especialmente uma declaração polêmica do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP).

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A agência anunciou o fim da exigência nesta quarta (3) em coletiva de imprensa. Para autorizar o uso emergencial de um imunizante, a Anvisa segue exigindo estudo de desenvolvimento clínico na fase 3, mas agora ele não precisa estar sendo conduzido no Brasil.

“Nosso guia sobre uso emergencial foi promulgado no dia 2 de dezembro e contemplava a necessidade de um estudo clínico de fase 3 neste país. A situação de uma pandemia é extremamente dinâmica. Não existe uma semana igual a outra. Esse é um mantra repetido por todos os pesquisadores. Vislumbramos então a possibilidade de que esses estudos fossem realizados em outros países desde que tivéssemos acesso completo às informações. Essa possibilidade veio sendo patenteada ao longo do tempo e ontem conseguimos divulgar”, disse.

“Esperamos que, nessa realidade de escassez de vacinas, outros laboratórios que estão desenvolvendo os estudos fora do país possam se candidatar. Agora, é mandatório que os estudos em outros países sejam revelados integralmente para nós. Não basta a citação. A responsabilidade é nossa. Com isso, o prazo de análise vai aumentar de até 10 dias para até 30 dias. Vemos aí movimentações, principalmente políticas, para arbitrar prazos menores. Somos legalistas, mas parece pouco provável que em 72 horas uma posição oficial seja dada. Mas o compromisso da agência é com a legalidade. O Congresso é um local dos legítimos representantes do povo e merece respeito. Tentaremos sempre atender. Apenas revelo uma preocupação”, completou Barra Torres.

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Ao citar a pressão política para diminuir os prazos, o presidente da Anvisa fez referência a uma declaração feita mais cedo por Ricardo Barros, que afirmou que tenta formar maioria na Câmara para apresentar um projeto para “agir contra a falta de percepção da Anvisa sobre o momento de emergência que nós vivemos” e “enquadrar” a agência.

“Essas declarações pegaram muito mal. Foram completamente desnecessárias. Hoje tenho aqui um quadro de servidores profundamente impactados com o que foi dito pelo líder do governo. Tento me manter sempre à margem de qualquer questão política, mas desta vez mexeu com a honra de pessoas que estão fazendo sacrifícios. Essas pessoas foram atingidas por declarações que não consigo compreender. Fora de contexto, fora de momento. Ele nos acusa de não estarmos nem aí para a pandemia. Não entendo”, rebateu Barra Torres.

“Vejo muito o lado humano da coisa. Sou pai. Imagina um servidor chegando em casa e o filho que ouviu essa declaração pergunta: o que você está fazendo lá? Não estão trabalhando? É muito sério. Não adianta vir com uma postura blasé agora de conciliação porque o mal está feito. Foi desnecessário. [Os servidores] estão tentando fazer o melhor. A Anvisa hoje é a agência que mais rápido analisou protocolos vacinais no mundo. Não fui eu, foi a área técnica que foi atacada hoje. Espero que ele entenda o mal que fez e repare com urgência. Foi um grande desserviço aos esforços nacionais no combate à pandemia. Nosso inimigo é um só, o vírus. Espero que esse dia acabe logo e a gente vire a página”, completou.

União Química havia criticado guia da Anvisa

Ao comentar os atrasos no processo de aprovação da Sputnik V no Brasil, Fernando de Castro Marques, presidente da farmacêutica União Química, responsável pela vacina russa no país, disse ontem ao blog que a empresa estava “presa em um guia que a própria Anvisa tem condições de alterar, atualizar e modernizar”.

A Sputnik V é produzida pelo Instituto Gamaleya e comercializada pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF). Atualmente é aplicada em nações como Rússia, Bielorrússia, Sérvia, Emirados Árabes, Argentina e Paraguai, além de ter sido aprovada pela OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde).

No início da semana, a revista científica The Lancet divulgou que o imunizante apresentou eficácia de 91,6% contra a covid-19. Em seguida, o México foi mais um país a aprovar a aplicação da vacina.

“Depois da publicação da The Lancet, até a Angela Merkel entrou em contato interessada na Sputnik V para a Alemanha. Para se ter uma ideia, a revista não recebe um trabalho e publica. Ela audita. A fase 3 feita na Rússia foi auditada. Por isso o processo demora”, disse Marques.

“Estamos presos em um guia que a própria Anvisa tem condições de alterar, atualizar ou modernizar. Temos produtos no Brasil com anticorpos monoclonais que estão sendo utilizados e não fizeram a fase 3 aqui. Acho que está tendo um rigor muito grande em um momento de pandemia. Não estamos nos furtando a fazer [os testes de fase 3], vamos fazer quando liberarem, mas entendemos que o governo tem segurança para autorizar a Sputnik V”, completou.

O presidente da União Química adiantou que tem uma reunião agendada para sexta-feira (5) com equipes do Ministério da Saúde, especificamente do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

“Espero que tenhamos um sinal positivo na negociação. Acredito que a Anvisa vai acabar liberando, baseada em tudo que está acontecendo no mundo”, afirmou, ressaltando que, caso precisasse aguardar a conclusão dos testes de fase 3 no Brasil, a liberação da vacina teria um atraso de “no mínimo 60 ou 90 dias”.

Segundo Barra Torres, no entanto, a agência ainda não recebeu toda a documentação complementar que foi solicitada à farmacêutica.

“Faltam muitos documentos serem apresentados. Reitero: é importante que os estudos feitos na Rússia sejam expostos em sua totalidade para nós. Não basta serem realizados se não temos acesso às informações. Elas precisam ser verificadas. Precisamos ter acesso e acredito que teremos. Acredito que a empresa apresentará com brevidade para continuarmos com nossa análise.”